Produção feita para a Fundação Araucária
São 22 mil quilômetros que separam Olena Tsvirko e Tetiana Hohol da terra natal. Apesar da distância entre Brasil e Ucrânia, há um laço invisível que as une: o amor pela pátria e a pesquisa sobre economia. Em Toledo, oeste do Paraná, as pesquisadoras passam seus dias entre livros, eventos científicos e o foco em analisar o transporte ferroviário, para Olena; enquanto Tetiana estuda a situação socioeconômica de refugiados ucranianos.
É na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) que tudo acontece. Para chegar até a sala da dupla, é preciso atravessar um corredor aberto, virar à direita e subir dois lances de escada, para então encontrar o bloco do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional e Agronegócio (PGDra), onde ambas desenvolvem o trabalho.
“Tive muita sorte de chegar nesta Universidade, que se dedica à atividade agrícola, ao desenvolvimento rural, porque esse é o tema da minha pesquisa há muito tempo”, descreve Tetiana, que viu no Paraná uma oportunidade de continuar a pesquisa. Como Olena, ela chegou ao Brasil há pouco mais de seis meses e já teve contato com a receptividade paranaense.
“Quando você vai para um continente completamente diferente e ouve sua língua nativa, é uma surpresa muito grande”, descreve Tetiana sobre como foi conhecer uma comunidade ucraniana em Cascavel, quando chegou ao Brasil com seu filho, Danylo. Com os colegas da Unioeste, não foi diferente. “Foi muito agradável porque estávamos preocupados em saber para onde ir, o que fazer, como iríamos chegar. Nós conhecemos os professores, e a primeira impressão foi de que todos são muito simpáticos”, descreve.

A jornada
A receptividade paranaense é unânime na fala dos pesquisadores bolsistas do Programa Paranaense de Acolhida aos Cientistas Ucranianos. Para Olena, não seria diferente, pois as pessoas que conheceu por aqui “são muito simpáticas e incríveis, sempre sorriem, estão prontos para ajudar”, nas palavras dela. Mas para viver este novo tempo, Olena e o marido Volodymyr atravessaram uma jornada. Em Varsóvia, longe do conflito, o casal voou para o Catar, depois para São Paulo, Cascavel, para enfim chegar em Toledo, um total de quase trinta horas de jornada.
“Estamos nos adaptando, acho que vai dar tudo certo, mas sinto falta dos meus filhos e da minha mãe, que ficaram no oeste da Ucrânia”, conta Olena. As similaridades entre as duas pesquisadoras, que não se conheciam antes de chegar ao Paraná, continuam. Ambas estavam em Varsóvia, cidade polonesa antes de virem ao Brasil. Para Tetiana, a ida a outro país foi a oportunidade de escapar da Guerra que ocorre em Kiev. “Muitas pessoas estavam saindo porque havia informações de que em poucos dias estaria completamente ocupada [a cidade] e a maioria das pessoas tentava fugir”.
Quando Tetiana e o filho deixaram Kiev, permaneceram no oeste da Ucrânia por um tempo e até moraram em cidades fronteiriças do país. “Os russos não conseguiram invadir através das cidades, mas o que aconteceu nessas cidades foi um inferno para as pessoas”, conta. Por serem regiões muito próximas da capital ucraniana, os moradores também sofrem as consequências do conflito. “Infelizmente, eles [soldados russos] queimam e roubam as casas, então nós fomos para a Polônia, especificamente para trabalhar”.
Estar longe da sua terra causa um sentimento de impotência para Olena. “Todas as manhãs, quando acordo, leio as notícias, como foi a noite, o que aconteceu, e depois ligo para minha mãe, que ainda está em Kiev”. A preocupação, segundo ela, é constante, pois “nossos amigos e parentes estão todos na Ucrânia, e esperamos que todas essas guerras acabem logo e tudo fique bem”.
A pesquisa a partir de agora

O professor Lucir Alves é um dos pontos de ligação entre as duas pesquisadoras. Orientador dos projetos da dupla, ele destaca que as duas já estão em contato com professores da Pós, para integrarem projetos de pesquisa e planejar o desenvolvimento de publicações em conjunto. Olena e Tetiana já participaram de conferências, visitas técnicas a empresas da região e eventos sobre economia.
“Elas também estão envolvidas em projetos de extensão na Unioeste, onde todos os cinco ucranianos (dois em Toledo e três em Foz do Iguaçu) realizam visitas aos campi e em escolas do município”, explica o professor. É muito gratificante. Para além de poder acolher as pesquisadoras, para Lucir, a oportunidade de interação científica é excepcional. E não somente isso. “Também passamos a conhecer melhor outra cultura, culinária, fazer novos amigos, praticar língua estrangeira entre tantas outras coisas maravilhosas”, completa.
A pesquisa de Tetiana na Unioeste é uma continuação do que já trabalhava na Ucrânia. “Minha investigação baseou-se no fato de que, para apresentar quaisquer propostas para o desenvolvimento rural, é necessária uma abordagem sistemática, não apenas aspectos econômicos e demográficos”. No Paraná, ela pretende analisar mais a experiência do Brasil na organização desses territórios rurais. “É muito cedo para tirar conclusões precipitadas, mas o Brasil é um país agrícola, assim como a Ucrânia. Por isso, em primeiro lugar, eu espero fazer um bom networking e conexões entre cientistas”.
Um desejo antigo
Chegar a Toledo é a realização de um sonho para o marido de Olena, Volodymyr. “Quando eu recebi o convite do Brasil, primeiramente, falei para ele: ‘você vem comigo? O que você diz’. E ele disse ‘ok, vamos juntos, você trabalha e eu descanso às vezes’. Nós estamos sempre juntos”, sorri Olena.
Para além do trabalho na Universidade, chegar ao Paraná é a chance de contar uma nova história para o casal que está junto há mais de 30 anos. “No final de janeiro [de 2023] começamos a aprender português, e começamos a trabalhar com os documentos. Ainda não posso acreditar que estou neste país, interagindo com tantas pessoas maravilhosas”, descreve o marido.
O mesmo ocorre com Danylo, filho de Tetiana. Os acompanhantes das pesquisadoras em terras paranaenses se sentem bem recebidos até na culinária. “Quando fomos ao supermercado pela primeira vez, foi muito interessante para mim porque toda a comida que eu via na Ucrânia, aqui não é cara”. As frutas são destaque na experiência do rapaz de 16 anos. “Elas são muito doces e muito saborosas. Então isso é o primeiro de tudo que eu gostei, as frutas”.
Olena e Volodymyr destacam que cada pessoa que conhecem está disposta a ajudá-los. “Isso é muito gratificante. Há 45 anos eu estava na Argentina [em viagem de férias] e, graças à minha esposa, esse sonho de vir ao Brasil [por conta da viagem] se tornou realidade”. Toda a hospitalidade recebida durante os meses por aqui já está inserida na rotina do casal. Ao final da entrevista, aquele convite típico brasileiro veio da ucraniana Olena: “Vocês são bem-vindos em nosso apartamento para experimentar a nossa culinária”.
Texto e fotos: Jéssica Natal – UEPG
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