Arqueólogo das Palavras: Pesquisador ucraniano mantém a memória viva da terra natal no Brasil

Desafios sempre existirão nos negócios, mas é nossa resposta que define nossa trajetória. Veja além do obstáculo imediato. Ali está um mundo de oportunidades e aprendizado.

O caminho contrário. Yurii Kovbasko acorda todos os dias disposto a inverter o que a ofensiva russa faz na Ucrânia atualmente. Enquanto bombas e ataques tentam destruir a cultura e identidade do seu povo, o pesquisador trabalha para manter a memória ucraniana viva. Tudo com apenas uma arma: as palavras.

Na Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro), de Guarapuava, desde agosto de 2022, Yurii atua para unir o futuro e o passado. Ao manusear jornais produzidos em Prudentópolis no início do século 20, o simbolismo surge, como um arqueólogo. Mas no lugar de objetos, ele encontra palavras. “O que estou fazendo agora aqui é criar um banco de dados. Na próxima etapa vou analisar, para finalmente criar um grande banco de dados da língua ucraniana no Brasil”, explica.

A língua ucraniana atravessa Yurii em todas as esferas da vida. Filólogo na Universidade Vasyl Stefanyk Precarpathian, ele mora na cidade de Ivano-Frankivsk, inspirada em Inván Frankó, um dos mais influentes poetas, escritores e dramaturgos da Ucrânia. “É muito difícil manter a memória da Ucrânia viva em outra parte do mundo. São mais de 50 mil quilômetros de distância”, adverte.

Mas a separação que o Oceano Atlântico proporciona não impede os planos de Yurii. “Se você não conhecer o seu passado, você não conhecerá o seu futuro”. O plano para a pesquisa é disponibilizar o banco de dados em todos os países. “Todas as outras pessoas na Ucrânia ou no mundo poderão usá-lo e analisar a língua do nosso povo ucraniano que viveu, que escreveu e que publicou”.

Na sala de casa em Guarapuava, Yuri, esposa e filho têm uma marca, para lembrar o porquê estão aqui: as cores amarela e azul, da bandeira da Ucrânia, são o símbolo do seu povo. Vir para o Paraná de forma temporária foi decisão puramente para fins de pesquisa, segundo ele. “Nós não mudamos para lugar nenhum. Decidimos ficar e se não fosse no Brasil, eu acho que eu estaria na Ucrânia, disso eu tenho certeza”, afirma.

O amor pela terra natal é grande. Ao fazer ciência no Paraná, ele reafirma a existência da Ucrânia como país. Por conta do impacto que a língua russa tem na Ucrânia, nos últimos 20 anos, antes de 2014 a 2020, a língua ucraniana acabou enfraquecendo. “Porque todas as pessoas, especialmente de Kiev ou outras cidades grandes, pensaram que isso as tornava pessoas marginalizadas”, explica. A língua do país é considerada um dialeto pelos russos. “E as pessoas tentam usar outros russos e ucranianos para se enquadrar na sociedade, para não mostrar que eles vêm das ‘montanhas’”, exemplifica. Para inverter essa lógica, Yurii reúne esforços para manter de maneira formal e oficial a léxica, a gramática e o estudo da linguagem ucraniana.

Recepção do pesquisador ucraniano, Yurii Kovbasko, na unicentro, em Guarapuava.

Na pesquisa

No momento, o trabalho do pesquisador se resume em uma ação: tirar fotos. “Estou o dia todo só com o celular, tirando fotos, verificando se está tudo bem, se está legível ou não”, conta.

Nos jornais, ele já nota algumas diferenças de grafia em algumas palavras publicadas em jornais ucranianos a partir da década de 1890, como a palavra ‘Olimpíada’. A intenção é que, quando softwares de leitura identificarem uma mudança de palavra, a tradução seja feita automaticamente. “A máquina funciona como uma máquina. É por isso que quero criar esse banco de dados da língua ucraniana que foi utilizada, foi escrita ou publicada no território do Brasil durante o século 20”.

O projeto é puramente linguístico. “Será de grande utilidade para quem se interessa pela língua ucraniana, pela linguística ucraniana, pois com este corpus você poderá analisar qualquer fenômeno linguístico em 10 segundos, em um minuto”, conta.

Luciane Baretta é supervisora da pesquisa de Yurii, no Programa de Pós-Graduação em Letras da Unicentro. “O enfoque especial da pesquisa é dado para a variedade de gêneros que representam as possíveis esferas das atividades gerais e pessoais, para recriar o retrato geral da comunidade ucraniana no Brasil”, informa.

O material coletado não se limita a romances, mas também analisa poemas, literatura acadêmica, textos religiosos, textos legais, jornais, diários, panfletos, (auto)biografias, receitas, cartas, arquivos familiares, comentários em fotografias, correspondência pessoal, documentos, agendas e discursos. Todos os materiais manuscritos ou impressos durante o período de 1872 a 1951 são objeto de análise.

A coleta de dados continua ocorrendo e, até o momento, Yurii já registrou aproximadamente 100 GB de arquivos, extraídos de fontes impressas brasileiras e argentinas. Todos os dados serão organizados e estruturados para compor o Corpus Diacrônico da Língua da Diáspora Ucraniana no Brasil. “Esse corpus será uma coleção de material diacrônico escrito da língua ucraniana utilizada no Brasil, que será armazenado em um computador, acessível a pessoas de todo o mundo e utilizado para estudar como a linguagem é usada”, informa Luciane.

O próximo passo da pesquisa é o refinamento do material, para que ele seja integrado ao Corpus Geral Anotado Regionalmente da Ucrânia, a maior coleção representativa de textos em ucraniano.

Yurii Kovbasko com sua família, na casa onde está morando em Guarapuava.

Sobre a Guerra

Mesmo em meio à Guerra, Yurii continuava ministrando aulas, de maneira remota. Entre os estudos dentro de casa, a ofensiva russa atacava na área externa. “Quando ouvíamos a sirene,  era preciso parar a aula e se esconder. Se você quisesse podia ir para o abrigo antiaéreo, se não, ia para algum lugar, como o banheiro”. Uma manhã ficou na memória do pesquisador: o dia que os ataques começaram, em 2022.  Enquanto as pessoas falavam sobre a Guerra, ele foi tirar dinheiro no caixa eletrônico.

“Estávamos em uma longa fila. Eu não estava sozinho. Havia pessoas que sentiam o mesmo. E havia, eu acho, 23 pessoas perto do caixa eletrônico esperando. Então para nós era apenas mais uma manhã”, recorda. Naquela situação, as notícias sobre o conflito tomaram conta da rotina da família de Yurii. “Eu nunca na minha vida assisti tanta TV, porque estávamos apenas esperando” . A espera, segundo ele, é pela vitória, com a certeza de que a Guerra terminará em breve. “Tenho a certeza de que a Ucrânia vencerá e espero que os parceiros ocidentais sejam mais decisivos nas suas  atitudes e que a nossa vitória venha muito mais rapidamente do que algumas pessoas dizem”.

E quando a vitória chegará? “Não sei. Esperamos que isso possa acabar em breve”, ressalta. Mesmo com a incerteza, uma rotina já foi estabelecida. Yurii fala com os familiares pelo menos três vezes ao dia. A primeira ligação é das 08h às 9h, para a mãe, nos horários brasileiros, por conta da diferença de seis horas com a Ucrânia. “Então, a gente tem essa primeira ligação porque se eu não ligar ela fica preocupada, porque ligamos todos os dias na mesma hora”. Depois, o filho de Yurii liga para a avó, por volta das 13h. “E quando são 22h na Ucrânia eu faço a última ligação para saber como foi o dia, se está tudo bem, se teve algum problema”, complementa.

A família e a Ucrânia são as duas grandes motivadoras de Yurii. Mas seu projeto não é pessoal. “Eu não vou me beneficiar dele. Eu faço isso para outras pessoas. Em dois ou três anos eu espero que ele dê frutos”, conta. O objetivo é que a maioria das pessoas que falam ucraniano, ou que estão interessadas no idioma, se beneficie com o projeto.

Yurii Kovbasko com sua família, na casa onde está morando em Guarapuava.

Na extensão

Na Unicentro, os pesquisadores ucranianos foram inseridos como participantes do programa de extensão “Núcleo de Estudos Eslavos”, com o objetivo de desenvolver  atividades junto à comunidade ucraniana da região centro-sul do Paraná. O coordenador do projeto, professor Clodogil dos Santos, será o orientador extensionista de Yurii no projeto intitulado ‘Ações de fortalecimento da identidade cultural ucraniana no cenário paranaense’.

“Dentre essas atividades, é possível destacar a colaboração do pesquisador em cursos de língua ucraniana, que são ministrados para membros da comunidade”, informa Clodogil. Como parte do trabalho no projeto, Yurii participou como palestrante em eventos de lançamento de livro sobre o Holodomor, o genocídio praticado contra o povo ucraniano pelo regime de Stalin em 1932 e 1933. “As ações extensionistas contemplam também a colaboração do pesquisador na organização do Simpósio Internacional de Estudos Eslavos, a ser realizado em junho de 2024”, acrescenta o coordenador.

Como Clodogil trabalha em Irati e Yurii em Guarapuava, o contato da dupla se dá majoritariamente de forma online. “Devido ao envolvimento do pesquisador com o Núcleo de Estudos Eslavos, sabemos que sempre podemos contar com ele nas ações desenvolvidas pelo Programa. A expectativa é envolver o pesquisador em mais ações desenvolvidas pelo Núcleo”, completa.

Yurii tem percorrido comunidades ucranianas no Paraná, como Prudentópolis, Mallet, Irati e Curitiba, além de se reunir com lideranças locais. “Ter esses pesquisadores trabalhando conosco possibilitou vislumbrar ações de internacionalização de modo mais concreto”, avalia Clodogil. Para ele, a ação promovida pela Fundação Araucária é de fundamental importância tanto para as universidades como para a comunidade de imigrantes e descendentes que moram no Paraná.

Entre Brasil e Ucrânia

Com a chegada no novo continente, a comparação com duas realidades distintas acaba sendo inevitável. A família chegou em Guarapuava no final do inverno, enquanto na Ucrânia o verão se encerrava. “O que eu notei é que no Brasil vocês não têm temperaturas negativas. Mas há dias em que a temperatura [na Ucrânia] pode chegar a -10, -15ºC”, exemplifica. Outras diferenças que notou, no dia a dia, são relacionadas à comida, como o açúcar branco, muito mais doce do que o costume na Ucrânia.

“Açaí… nós provamos e realmente gostamos. Estava muito gelado, tentamos comer em pequenas colheradas. Provamos pastel e caldo de cana com um pouco de abacaxi”, conta.  A família já se habituou a fazer a feira de frutas no supermercado. “Comemos bananas, vi que tem pelo menos quatro tipos, de diferentes tipos e tamanhos, então cada dia você tem algo novo para provar. Já trouxemos para casa laranja e é extremamente gostosa”, descreve.

“Estou realmente grato à Fundação Araucária por essa oportunidade de vir ao Brasil. Essa é uma experiência única”, comemora Yurii. Quando ele recebeu a carta de aceite, apenas sentimentos bons invadiram a mente e o coração do pesquisador. “A partir daquele momento eu estava tentando seguir em frente, e arrumar tudo que era necessário para que essa jornada se tornasse real”. Yurii faz questão de ressaltar que não é refugiado no Brasil e que veio fazer apenas uma coisa, antes de voltar para a Ucrânia: pesquisar.  Quando retornar para a terra natal, ele deseja encontrar um cenário diferente. “Queremos paz. Eu só quero desejar que isso pare o mais rápido possível. E claro, com a nossa vitória. Não há outra forma”, finaliza.

Texto: Jéssica Natal | Fotos: Henry Milléo | Originalmente publicado em Arqueólogo das Palavras: Pesquisador ucraniano mantém a memória viva da terra natal no Brasil | Fundação Araucária (fappr.pr.gov.br)

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