Guerra e Paz : Família encontra um lar no Paraná após ter casa destruída na Ucrânia

Como é viver dividido? Ao contrário do que a ciência diz sobre coisas físicas, o coração consegue existir em dois lugares ao mesmo tempo. A família Slynko sabe bem o que é fazer essa “conta de dividir”. Em agosto de 2022, no mesmo dia em que descobrem que a casa foi destruída por bombardeios na…

Como é viver dividido? Ao contrário do que a ciência diz sobre coisas físicas, o coração consegue existir em dois lugares ao mesmo tempo. A família Slynko sabe bem o que é fazer essa “conta de dividir”. Em agosto de 2022, no mesmo dia em que descobrem que a casa foi destruída por bombardeios na Ucrânia, Dmytro, Ekatherina, Maria e Vitória encontram um novo lar em Jacarezinho, no Paraná.

Eles vieram de Kharkiv, uma das maiores cidades da Ucrânia, que foi devastada pela Guerra. A mudança para a nova casa, que fica no norte pioneiro paranaense, com pouco menos de 40 mil habitantes, se deu porque a família foi selecionada para o Programa de Acolhimento a Cientistas Ucranianos, promovido pela Fundação Araucária.

Os quatro chegaram de viagem recebidos por uma equipe da Universidade Estadual do Norte do Paraná (Uenp), onde Dmytro irá pesquisar Direito Civil e Código Penal brasileiro. “Nós estamos muito felizes por estar aqui, porque é um lugar seguro. Nós vivíamos em Kharkiv e todos os dias havia bombas da ofensiva russa, por causa dessa guerra estúpida”, disse o Dmytro, nas suas primeiras palavras públicas em terras brasileiras.

A acolhida já mostrou a personalidade de cada um. O pai, educado e atencioso; a mãe, cuidadosa e preocupada com as filhas. As meninas ganham papel especial com personalidades distintas. A mais velha, Vitória, é tímida, mas sorridente. Maria, a filha caçula, não esconde o que sente – gargalha, olha com atenção para tudo, fala e abraça os pais.

Com a nova casa no Brasil, a rotina precisou também entrar nos eixos. Em 05 de setembro de 2022, a família conseguiu conhecer boa parte do que seria a escola das crianças. Os escombros das escolas da Ucrânia não destruíram a vontade sólida das filhas – principalmente a mais velha – em continuar os estudos. Desde o início da guerra, elas precisaram estudar de modo online, mas a vinda ao Brasil retoma a rotina de estudos presenciais. “Elas realmente querem muito começar e elas querem ir pra escola. Estão com medo, porque é um novo lugar, é uma nova escola, novos amigos, mas elas querem muito isso”, afirma Dmytro.

Ekaterina, mãe das meninas, também fala do momento difícil em que as filhas precisaram passar longe da escola. Sobre Vitória voltar a estudar presencialmente em um país estrangeiro, a mãe é enfática – pode ser assustador, mas é necessário. “Ela não está assustada agora, mas o momento é muito difícil, porque tudo é muito diferente”, conta.

O contato com crianças em um ambiente escolar era o primeiro depois de muito tempo para as meninas. Enquanto os pais conheciam a estrutura e planejamento pedagógico do Colégio, ambas puderam socializar com os alunos e brincar no parquinho do prédio. Ekaterina, mãe de Maria e Vitória, não deixou de reparar na felicidade das duas. “Quando eu vou para a escola?”, descrevia ela, sobre as insistentes perguntas da filha mais velha, ávida em retomar os estudos, interrompidos pela guerra.

A pergunta insistente da mais velha foi respondida algumas horas depois. A resposta veio logo após os quatro conhecerem mais sobre os livros didáticos oferecidos no colégio. Ao saber que o local seria, efetivamente, seu ambiente de estudos, Vitória deixou a timidez de lado para agradecer seus pais pela novidade. Não era necessário saber falar ucraniano para entender o “muito obrigada” dito em gestos pela filha.

Em meio aos risos, um barulho familiar. O sinal do colégio, que avisava sobre a hora do intervalo, soou similar às sirenes de um bombardeio, em cidades em estado de exceção. Por um breve momento, todos se calaram diante do som, que parecia anunciar o que aconteceria no dia seguinte para a família.

O dia que não acabou

A chuva caía torrencialmente na manhã seguinte. Junto com o sinal da escola, ela anunciava um momento triste para a família. Naquele dia, a casa de Kharkiv foi destruída por um bombardeio. Os quatro, acostumados a ter um coração dividido entre dois mundos, tiveram que ver seu lar acabado no mesmo dia em que iriam conhecer a futura casa no Brasil.

A casa fica do outro lado da rua em que as filhas estudam. Era o primeiro dia em que a família conhecia o novo lar, após confirmar o local de estudos das meninas, no dia anterior. Mas a felicidade precisou ser subtraída – o choro de Ekaterina não escondeu. Enquanto aguardavam para entrar na nova casa, a mãe  deixou as lágrimas caírem no mesmo ritmo da chuva.

“A nossa Ucrânia está se despedaçando […] todo o tempo, todos os dias há bombas russas na nossa região. E eu não sei por que ”, dizia em prantos a mulher, já do lado de dentro da nova casa. Enquanto as crianças brincavam com os novos brinquedos, não dava para esconder a dor dos adultos. “A nossa região fala russo, nós somos muito próximos da Rússia. Nós vivemos, nós trabalhamos, temos as crianças e eles destroem nosso país”, dizia, enquanto as lágrimas caíam.

Kharkiv, ou Carcóvia em português, é uma cidade acostumada a estar dividida, assim como a família Slynko. A segunda maior cidade da Ucrânia fica a apenas 40 quilômetros da fronteira entre Europa e Rússia e é um local em que a maioria tem o Russo como língua materna. Durante a era soviética, a Carcóvia foi, entre outras coisas, centro da indústria armamentista. Ao decorrer dos anos, moradores testemunharam manifestações contra e a favor da independência da Ucrânia.

A família conhece a história da sua região e não deixa de se preocupar com a família que ficou no país. “[Nossos pais] Estão bem, estão em casa, mas a gente não sabe o que vai acontecer amanhã. Eu não sei. Eu sinto muito por estar chorando. É muito difícil para nós”, descreve Ekaterina. Mesmo com o medo e tristeza, o desejo de querer ajudar não desapareceu no coração da mãe. “Nós gostaríamos de estar lá para ajudar o nosso povo, para se voluntariar, mas eu tenho as minhas próprias crianças, então eu tive que sair para garantir que elas estivessem seguras”.

A fala acontece porque, mesmo em meio a conflitos, Ekaterina nunca parou de trabalhar na área de assistência social, no Centro Regional de Serviços Sociais de Kharkiv. No celular, a ucraniana mostrava orgulhosa as ações de distribuição de comida e medicamentos para famílias prejudicadas pela Guerra. “Para mim é muito difícil estar aqui e deixar para trás a população que precisa de ajuda”, descreve.

Ver a família – marido e filhas – segura não dissipa a preocupação. “Pessoas na nossa região não estão seguras, nossa família, nossos amigos e toda a população. Muitas pessoas perderam suas casas… É difícil para nós, porque a gente quer ajudar também”.

A primeira postagem depois do bombardeio na própria casa mostrava todos os cômodos destruídos, muita poeira e restos do que um dia abrigou uma família. Pelo celular, a família mostra o que deixou para trás para começar uma nova história no Brasil. Nas imagens, apareciam os colegas de trabalho, amigas, médicos e voluntários que ajudam pessoas com deficiência. “Eu trabalho com algumas crianças com deficiência, como essa aqui. Todos no nosso grupo têm um trabalho duro. Eu posso te mostrar esse vídeo, que é a nossa casa…”, mostrava Ekaterina.

A nova casa fica no andar de cima de um sobrado comercial. Basta subir alguns degraus de escada para adentrar no imóvel. Todo mobiliado, ele traz o ambiente aconchegante para a família. Mas o que é um lar? Para Dmytro, lar é a Ucrânia. “Onde nós nascemos eu acho que é um lar. Eu acredito que tudo vai ficar bem lá, mas não agora, no futuro”. Para Ekaterina, lar é alegria e segurança. “É onde a gente possa trabalhar, ter amigos e onde todos os dias tenha alegria. Para mim é isso que é um lar”, descreve.

Mas em Jacarezinho, o novo lar não terá os mesmos problemas e até apresenta novas soluções. Além de oferecer abrigo seguro para a família, ele fica em frente da nova escola das meninas. O mundo, tão grande e dividido para os quatro, preparou uma conta mais simples dessa vez: para estudar, basta atravessar a rua.

E foi isso que a família fez. Cruzou a rua para ir ao Colégio, pouco tempo depois de receber a notícia da destruição da casa em Kharkiv. Desta vez, não deixaram a casa por um longo período, mas momentaneamente para levar a filha para a aula; não ficarão longe do lar, pois ele fica logo ali; não temem a destruição, pois o novo lar é acolhedor.

Texto e fotos: Jéssica Natal | Originalmente em Guerra e Paz : Família encontra um lar no Paraná após ter casa destruída na Ucrânia | Fundação Araucária (fappr.pr.gov.br)

Tags:

Deixe um comentário