Longe de casa, ucraniana ressalta a importância de falar sobre a Guerra

Em uma cenário de negócios dinâmico, a adaptabilidade não é uma característica, mas uma vantagem competitiva. Empresas que abraçam a mudança, aprendem com os desafios e se adaptam quando necessário são as que não apenas sobrevivem, mas prosperam em ambientes incertos.

No Paraná desde janeiro de 2023, Katherina Hodick leva um pedaço da Ucrânia por onde vai. A cada passo pela cidade e no campus da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a pesquisadora olha para o futuro, sempre com a memória viva do que deixou para trás no além mar. Ao relembrar o que viveu antes de sair de Kiev e traçar planos no Brasil, ela carrega o lema: é preciso falar sobre a Guerra.

“Eu desejo que vocês nunca saibam o quanto é difícil. É meu maior desejo, que isso acabe e nunca mais aconteça, em qualquer país”. Enquanto Katherina expressava esse sentimento, manuseava uma pulseira com o mapa da Ucrânia, no braço esquerdo. Ela conhece cada pedaço do país – apontou onde fica a Crimeia, primeiro espaço de disputa russo; Odessa; Mar Negro; e Chernobyl. “Temos linha de frente aqui, essa parte longa […] e este é o lugar mais perigoso, esta parte […], acreditamos que é um lugar seguro, mas às vezes, os foguetes caem aqui”, dizia enquanto apontava para a região onde fica Kiev.

Bastou se sentar na Biblioteca da UEL para que as lembranças viessem de pronto. Katherina lembra dos pais e do marido, que ainda estão na capital ucraniana. “Meu marido não pode deixar a Ucrânia, ele não é autorizado porque ele é homem e ele pode ingressar no exército a qualquer momento”, conta. Quando surgiu a oportunidade de participar do Programa de Acolhida a Cientistas Ucranianos, da Fundação Araucária, foi o momento de pensar: talvez ela nunca mais os veria. “Viver na Ucrânia faz você perceber que a morte não é algo especial. E eu pensei que, talvez, eu não os veria novamente, mas me dei conta que seria um grande desafio para mim, como pesquisadora [vir ao Brasil]”, descreve.

A pesquisadora ucraniana Katherina Hodick, que atua na Universidade de Londrina – UEL

Katherina é professora da Academia Júnior de Ciências da Ucrânia, onde atua no desenvolvimento de materiais pedagógicos direcionados a crianças que participam de competições intelectuais. Na UEL, a pesquisadora trabalha no Programa de Pós-Graduação em Letras. Quando ainda estava em Kiev, os apagões eram frequentes, o que fez com que ela e demais colegas tivessem que lecionar nas estações de metrô, onde há luz e é seguro. “Se estiver em Kiev e quiser sobreviver durante uma guerra nuclear, você deve ir para a estação Arsenal, a mais profunda da Europa”, adverte.

Desde que chegou em Londrina, a pesquisadora diz pensar na Guerra todos os dias. “Uma pessoa me perguntou por que deveríamos falar sobre a guerra. Eu tinha uma boa resposta: a guerra pode acontecer no seu país também, e eu gostaria que acabasse, não apenas na Ucrânia, mas também em outros países”.

Para Katherina

Mesmo com a separação geográfica, há lugares em que as línguas russa e ucraniana convivem, especialmente na parte oriental do país. O conflito aflora sentimentos que existem desde a União Soviética. “É o estilo de vida. Fala-se ucraniano, isso significa que não se é suficientemente bom, porque na propaganda russa dizem que os ucranianos são outro povo”, conta.

A disputa é também pela cultura. “Acham que somos muito estúpidos ou muito primitivos e  nos chamam de ‘pessoas da vila’. Mas, na cultura ucraniana, a vila é o centro da cultura e não é primitiva”. A cultura da vila, como conta Katherina, é viver em comunidade, como casar-se em Outubro, depois do inverno, quando as famílias têm provisões financeiras. “É preciso chamar toda a gente, porque é uma festa de três ou sete dias”.

O sentimento de pertencimento fez com que o marido permanecesse na Ucrânia de forma mais tranquila. “Ele acredita que nada acontecerá com ele. Mas minha saúde mental não é tão boa, porque é um tanto estressante quando você acorda ouvindo explosões em algum lugar, talvez próximo à sua casa”.

A pesquisadora ucraniana Katherina Hodick, que atua na Universidade de Londrina – UEL

O fato de nunca saber quando e onde a próxima bomba cairia na cidade causava muito medo em Katherina. “Você deve pegar seu telefone e ligar para sua mãe e seu pai, e para seu marido, para alguém checar se está tudo bem”.  O barulho de uma bomba se assemelha ao escape de motocicletas ou cortadores de grama, para ela. “Após esse trauma, às vezes quando eu escuto isso, eu olho ao redor apenas para checar onde estou”.

A Guerra não atinge apenas humanos. Assim como no Brasil, ucranianos também cuidam dos seus animais de estimação. “Um dia, a Guerra chega em sua cidade e você tem cinco a quinze minutos para escapar”. Na maioria das vezes, não há tempo de encontrar seu pet. “Eles não conseguem sobreviver na natureza, porque eles são pets. Eles não sabem como encontrar comida, eles têm baixa imunidade, eles podem morrer por um vírus”, lamenta.

Para ajudar os animais da Ucrânia, Katherina apoia o Zoopatrul, grupo que resgata animais afetados pelo conflito. “Em março, eles visitaram um vilarejo, onde não havia pessoas, porque todos foram evacuados, e eles resgataram alguns animais. Eles têm abrigo, clínica e tentam encontrar novos donos”.

Mesmo comprometida com a pesquisa no Brasil, ela tenta lidar com o estresse que a Guerra deixou. “Só agora consigo dormir bem. Por causa dos problemas na Ucrânia, parei de dormir a noite toda. Porque também faz parte do trauma e não é um problema especificamente meu, é um problema de todas as mulheres e homens ucranianos”. Quando se acorda ouvindo uma explosão, é difícil adormecer mais uma vez. “No seu cérebro você entende que está longe de casa, está seguro, está tudo bem, mas para o seu corpo são os sons altos”, descreve.

Novas formas de trabalhar

“Quando eu cheguei em Londrina eu não sabia nada, não falava bem português”, conta. Apesar de ter conversado com o seu orientador quando ainda estava na Ucrânia, a linguagem ainda era um obstáculo quando desembarcou na cidade. Em pouco mais de nove meses, a pesquisadora já conversa e compreende bem a língua portuguesa. “Sou filóloga [pesquisadora de linguagem] e para os filólogos não é muito difícil aprender a língua, apenas uma questão de tempo”, ri.

O idioma não foi a única barreira que atravessou – questões de relacionamento pessoal foram também uma nova aventura. “Eu fui ao carnaval aqui em Londrina, junto com o meu orientador e sua família, e na Ucrânia isso é totalmente impensável, porque não é bem visto”, descreve.

A relação com seu orientador, o professor do Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da UEL, Frederico Garcia Fernandes, é como de pai e filha. “Katherina é uma jovem pesquisadora muito amigável e extremamente interessada na cultura brasileira. Assim que chegou no país, nós a acolhemos em nossa casa, que foi sua primeira moradia”, conta Frederico.

Quando chegou a hora de alugar uma moradia, o professor alugou o apartamento que pertence à sua sogra para a pesquisadora. “Katia, como a chamamos, é hoje em dia parte de nossa família. Sua afinidade com minha esposa foi tão grande, que ela chegou a afirmar que só entendia português quando falava com ela”.

A dupla conversa na maior parte do tempo em inglês. “Mas de uns meses para cá a evolução de seu português tem sido impressionante, graças à sua enorme dedicação e estudos. Agora misturamos um pouco de inglês e português”, descreve.

A convivência com ela é um privilégio para o professor. “Katia transformou-se como pesquisadora no Brasil. Ganhou maturidade e segurança. Acredito que no futuro será uma grande referência sobre cultura brasileira na Ucrânia”, completa.

Próximos passos

Neste semestre, Katherina pretende iniciar um curso de literatura ucraniana na UEL. “O nome é Retratos da Resistência, uma breve história da literatura ucraniana”, conta.

A pesquisa na UEL será desenvolvida na área de Teoria Literária, para efetivar uma aproximação cultural entre escritores ucranianos e brasileiros. “Num primeiro momento, estamos preparando uma antologia de poetas ucranianos contemporâneos para serem traduzidos para o português”, descreve o orientador. Depois, a pesquisadora fará uma seleção de brasileiros para serem traduzidos para o ucraniano, com uma reflexão sobre coletivos poéticos e seu papel diante da Guerra.

Com tantas novidades e trabalho intenso, apesar de estar longe da terra-mãe, ela entende a importância de se viver em comunidade e pensar no futuro. “Eu espero pelo final da Guerra. Eu acho que… Nós vamos vencer. Nós vamos vencer essa guerra”. O resultado não é questão de tempo, mas de preço para ela. “Quantas pessoas vão morrer? Muitas vilas e cidades vão ser destruídas. A questão é quanto isso vai custar?”.

Texto: Jéssica Natal | Fotos: Henry Milléo | Originalmente em Longe de casa, ucraniana ressalta a importância de falar sobre a Guerra | Fundação Araucária (fappr.pr.gov.br)

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